Poluição visual
Martha Medeiros
A primeira vez que estive em Florença foi em 1986 e quase caí pra trás diante de tanta beleza. Estava em uma das mais impactantes cidades italianas: as piazzas com seus monumentos renascentistas, o Rio Arno acolhendo os remadores, a original Ponte Vecchio, tudo remetendo à arte e à inspiração na terra de Michelangelo. Ah, lembro que tinha uma feirinha de rua, também, que ocupava uma quadra do centro histórico. Simpática.
Passados 20 anos, retornei a Florença e o impacto foi diferente. Estavam lá as praças, os monumentos, o rio, a ponte, mas a feirinha simpática já era: ela inflou, ganhou ramificações (vontade eu tenho de escrever tentáculos)), passou a vender qualquer espécie de quinquilharia e a ocupar inúmeras ruas em torno da Catedral, transformando a centro histórico numa espécie de bazar a céu aberto.
Citei Florença como exemplo, mas sabe-se que esta overdose consumista atingiu diversas outras cidades turísticas espalhadas pelo mundo. Viajar virou símbolo de comprar. Nas filas de embarque, gigantescas malas se acumulam nos carrinhos, com os passageiros pagando excesso de bagagem e tendo a impressão de que, com isso, aproveitaram bem a viagem, só por estarem trazendo uma infinidade de bugigangas, a maioria delas encontráveis também na Rua da Praia. Comprar. Comprar. Comprar. Que vício.
Voltei pensando na concorrência que o comércio informal disputa com a arquitetura das cidades, muitas vezes impedindo que a gente absorva direito sua real atmosfera. Não há relação direta, mas isso de algum modo fez com que eu recebesse com simpatia a notícia de que São Paulo aprovou uma lei que suspenderá, a partir de 1º de janeiro de 2007, toda propaganda externa, em especial os outdoors.
Trabalhei muitos anos como publicitária e sei que é possível divulgar um produto ou serviço de forma eficaz sem afetar a paisagem. Outdoor é obsoleto. Polui a cidade, descaracteriza-a. O mercado publicitário pode tranquilamente abrir mão dos cartazes de rua. Cuidar da estética da cidade não é “glamorização”, não é frescura. É uma atitude consciente para aliviar um pouco a vida dos moradores, que andam tontos com o excesso de informação. E é uma medida para atrair turistas, porque ninguém sai da própria casa para visitar uma cidade feia.
Se a medida parece radical – e é mesmo -, é porque essa faxina é necessária. Depois, com a cidade mais limpa e mais aberta, aí se poderá refletir melhor e discutir com a população o que pode ser tolerado, desde que não comprometa o panorama. Em todas as metrópoles do mundo há propaganda dentro das estações de metrô, em alguns espaços específicos nas calçadas e em demais pontos urbanos, mas sem bagunça e sem obstruções.
Não sei o que meus ex-colegas de profissão estão pensando sobre o assunto, mas confio no discernimento da classe e acho que acatarão a medida sem muita discussão. Espero que São Paulo se livre dessa praga visual e possa apresentar-se mais bela aos olhos dos paulistanos, e que o sucesso da medida seja tanto que outras prefeituras que detectarem o mesmo problema possam imitá-la logo, logo.
Domingo, 8 de outubro de 2006.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.